Celso Furtado, economista. Sergio Buarque de Holanda, historiador. Gilberto Freyre, sociólogo. Caio Prado Júnior, economista. Talvez sejam as quatro mentes que melhor descreveram a formação histórica, social e econômica do Brasil. Legendas científicas. Um texto escrito sobre a realidade brasileira, em qualquer lugar, por qualquer um e em qualquer tempo ao referencia-los, sorve pare si credibilidade.
O livro de que trata essa revisão referencia todos, em uma só página. A um brasileiro amazônida e ufanista como eu, é um prazer e uma honra vê-los referenciados em um livro que trata da minha terra, sobretudo em um livro escrito em língua estrangeira.
Euclides da Cunha escreveu sobre o livro de contos O Inferno Verde, de Alberto Rangel, escrito sobre a Amazônia: “O Inferno Verde, a começar pelo título, devia ser o que é: surpreendente, original, extravagante; feito para despertar a estranheza, o desquerer, e o antagonismo instintivo da crítica corrente, da crítica sem rebarbas, sem arestas rijas, lisa e acepilhada de ousadias, ... Porque é um livro bárbaro. Bárbaro, conforme o velho sentido clássico: estranho. Por isso mesmo, todo construído de verdade, figura-se um acervo de fantasias.”
Ao leitor que não reluta em opinar sobre o futuro da Amazônia, porém pouco familiarizado com o cotidiano do lugar e que, em muitos casos, determina esse futuro, The Dynamics of Deforestation and Economic Growth in the Brazilian Amazon cai exatamente da mesma forma. Àqueles, as conclusões a que chegam os autores do livro são estranhas, inconvenientes e suas observações científicas se assemelham a um acervo de mentiras. Quem se atreve a imaginar que asfaltar estradas na Amazônia pode reduzir desmatamento? Quem se atreve a imaginar que o custo econômico da conservação de um hectare de floresta é superior ao benefício social dessa conservação? Entretanto essas e outras conclusões que o livro apresenta como ciência, são ao amazônida comum, corriqueiras. O homem que vive na Amazônia, e que a conhece, convive diariamente amiúde com o que os autores observam à luz da ciência.
O livro é assinado por cinco pesquisadores de diferentes instituições. Quatro deles possuem uma extensa lista de trabalhos feitos sobre (e para) a Amazônia. São eles, Lykke E. Andersen da Universidade Católica da Bolívia, Eustáquio José Reis do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Sven Wunder pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa Florestal (Cifor) e Diana Weinhold da Escola de Economia e Ciência Política de Londres. Cada um desses autores tem, ou tiveram em algum momento de suas vidas, a Amazônia como objeto de estudo. O livro reflete essas experiências.
O livro traz, no primeiro dos nove capítulos uma rápida introdução que situa o restante na literatura que trata de desflorestamento na Amazônia, e apresenta sua estrutura de capítulos. No segundo capítulo os autores apresentam a região ao leitor e mostram a forma como a ação antrópica nela evoluiu historicamente, desde a “Operação Amazônia” do governo militar brasileiro, até os dias de hoje. No terceiro os dados empíricos, suas fontes limitações e particularidades, são apresentados. No quarto, são apresentados as fontes e os agentes do desmatamento. No quinto é feita uma análise daquilo que é tido pelos “Amazonólogos de plantão”, como a esperança do fim do desmatamento: o extrativismo. As conclusões embora óbvias aos mais atentos, devem surpreender “Amazonologia”. No sexto capítulo é apresentado o modelo econométrico usado na análise da interação entre crescimento econômico e desmatamento. Os coeficientes estimados no modelo são usados para simular o efeitos de diferentes políticas (PPA e o Código Florestal) sobre a dinâmica econômica da região e o desmatamento. Novamente os resultados são completamente estranhos ao status quo científico sobre a Amazônia. O sétimo e o oitavo capítulo trazem, respectivamente, uma estimativa das emissões de carbono oriundas da mudança no padrão de uso do solo amazônida e uma estimativa empírica dos custos e dos benefícios do desmatamento. Mais uma vez deve arrepiar os “Amazonólogos”. O nono capítulo sumaria as conclusões dos anteriores e faz recomendações de políticas para a região.
Embora o livro como um todo seja assinado pelos cinco pesquisadores, pode-se reconhecer o crivo de cada um deles em alguns dos capítulos. Pode-se ver Lykke Andersen e Eustáquio Reis nos três primeiros capítulos, pode-se ver Diana Weinhold no quarto (Weinhold, 1999), pose-se ver Sven Wunder no sexto (Wunder, 2001) e novamente Lykke Andersen no sétimo e oitavo (Andersen, 1997).
Os brasileiros interessados em compreender e resolver a perda de florestas na Amazônia brasileira hoje, não precisam mais dos velhos textos que retratam, de forma fascinante e bem realizada, uma situação que não mais existe (e.g. Mahar, 1989; Hecht, 1982; Fearnside, 1980). Igualmente (in)úteis são as bravatas de um ambientalismo de olhos aguçados para quimeras e completamente cegos para fatos.
No momento em que se lê esta revisão cresce um consenso científico em torno de uma nova visão da Amazônia e seus assuntos. Uma visão mais próxima da realidade. Uma visão nascida da percepção dos equívocos da velha. Velha visão equivocada que ainda dita os rumos da região. Essa nova visão é patente nos textos de David Kaimowitz (e.g. Kaimowitz, 2002), Sergio Margulis (e.g. Margulis, 2003), Aril Angelsen (e.g. Angelsen e Kaimowitz, 1999), David Pearce (e.g. Pearce, Putz e Vanclay, 2003), Edward Barbier (e.g. Barbier e Burgess, 1997), João Santo Campari (e.g. Campari, 2002), Douglas Southgate (e.g. Southgate, 1998), Merle Faminow (e.g. Faminow,1998).
The Dynamics of Deforestation and Economic Growth in the Brazilian Amazon vem fortalecer de forma brilhante e contundente esse consenso nascente. A vida da Amazônia enquanto ecossistema, do qual faz parte o homem, carece desesperadamente da morte da velha visão e do crescimento vigoroso da nova.
O leitor mais atento percebeu que, dos cinco autores do livro, até agora só mencionei quatro. O quinto é Clive Granger, prêmio Nobel de Economia de 2003. O prêmio entretanto não lhe foi dado por seus estudos sobre a Amazônia, mas julgo ser impossível separar o conhecimento que construiu suas análises temporais, do conhecimento que ajudou a construir o modelo econométrico que fundamenta o livro ora em questão. Pode-se considerar o prêmio Nobel de Clive Granger como “um pequeno detalhe à margem de um grande livro”. Se um prêmio Nobel pode ser, de alguma forma, considerado um pequeno detalhe.
Na leitura desse livro e na compreensão do seu significado bárbaro (no sentido euclidiano da palavra) reside o a chave para o futuro da Amazônia. Que venham “a estranheza, o desquerer, e o antagonismo instintivo da crítica corrente, da crítica sem rebarbas, sem arestas rijas, lisa e acepilhada de ousadias, ...”
Livro
ANDERSEN, Lykke E.; GRANGER, Clive W. J.; EUSTÁQUIO, J. Reis; WEINHOLD, Diana; WUNDER, Sven. (2002). The Dynamics of Deforestation and Economic Growth in the Brazilian Amazon. Cambridge University Press. 256p.
Referências
1. ANDERSEN, Lykke E. (1997), A Cost-Benefit Analises of Deforestation in the Brazilian Amazon. Texto Para Discussão. No. 455. IPEA/DIPES. Rio de Janeiro. Brasil.
2. ANDERSEN, Lykke E; REIS, Eustáquio. (1997), Deforestation, Development and Governament Policy in Brazilian Amazon: An Econometric Analysis. Texto Para Discussão. No. 513. IPEA/DIPES. Rio de Janeiro. Brasil.
3. ANGELSEN, Arild; KAIMOWITZ, David. (1999), Rethinking the causes of deforestation: lessons from economic models. The World Bank Research Observer, vol. 14, no 1 (February, 1999), pp. 73-98.
4. BARBIER, Edward B.; BURGESS, Joanne C. (1997),The Economics of Tropical Forest Land Use Options. Ecological Economics. v 73(2): 174-195.
5. CAMPARI, João Santo. (2002), Challenging the Turnover Hypothesis of Amazon Deforestation: Evidence from Colonization Projects in Brazil. Ph D dissertation. Austin: University of Texas.
6. FAMINOW, Merle D. (1998), Cattle, deforestation and development in the Amazon: na economic, agronomic and environmental pespective. Oxon, U.K.: CAB International (Center for Agriculture and Bioscience).
7. FEARNSIDE, Philip M. (1980) The effects of cattle pasture on soil fertility in the Brazilian Amazon: Consequences for beef production sustainability. Tropical Ecology 21 (1): 125-137.
8. HECHT, S. B. (1982). Cattle ranching development in the eastern Amazon: Evaluation of a development strategy. Ph D dissertation. Berkeley: University of California.
9. KAIMOWITZ, David. (2002). Amazon Deforestion Revisited. Latin American Research Review. V. 37. No. 2. P 221 – 235.
10. MAHAR, Denis J. (1989), Governament Policy and Deforestation in Brazil’s Amazon Region. Technical Report. World Bank. Disponível em: Acesso em: 31 de julho de 2003.
11. PEARCE, David; PUTZ, Francis E.; VANCLAY, Jerome K. (2003), Sustainable Forestry in the Tropics: Panacea of Folly?. Forest Ecology and Managment. Vol. 172. p.229-247.
12. SOUTHGATE, Douglas. (1998), Tropical Forest Conservation: An Economic Assessment of the Alternatives in Latin America. Oxford: Oxford University Press. p. 175.
13. WEINHOLD, Diana. (1999). Estimating the loss of agricultural productivity in the Amazon. Ecological Economics. 31. 63-76.
14. WUNDER, Sven. (2001), Poverty Alleviation and Tropical Forest – What Scope for Synergies?. World Development. V. 29 No. 11. p. 1817 – 1833.